quinta-feira, janeiro 15, 2015

Testamento.



Minhas posses materiais são poucas e eu deixo tudo para você:

Uma coleira mastigada em uma das extremidades, sandália rasgada, muitos buracos e uma vasilha de água que se encontra rachada na borda.
Deixo para você a metade de uma bola de borracha e uma porção de ossos enterrados no quintal. Além disso, eu deixo para você a memória, que aliás são muitas.
Deixo para você a memória de dois enormes e meigos olhos, marrons, de uma caudinha curta e espetada, de um nariz molhado e de choradeira atrás da porta.
Deixo para você uma mancha no tapete junto a porta quando nas tardes de inverno eu me apropriava daquele lugar, como se fosse meu, e me enrolava feito uma bolinha para pegar um pouco de sol.
Deixo para você um quintal esfarrapado em frente a cozinha, que dificilmente vai ser consertado...isso é verdade.
Deixo para você um esconderijo de um osso que fiz no jardim debaixo dos arbustos perto da varanda da frente. Ele deve estar cheio de folhas agora e por isso talvez você tenha dificuldades em encontrá-lo. Sinto muito!
Deixo também só para você, o barulho de latido que eu fazia ao sair correndo sobre as folhas do jambeiro.
Deixo ainda, a lembrança de momentos pelas manhãs, quando você acordava e abria a porta e pulava em cima de você. Recordo-me das suas risadas, porque eu não consegui alcançar aquele gato impertinente.
Deixo-lhe como herança minha devoção, minha simpatia, meu apoio quando as coisas não iam bem, meus latidos quando você levantava a voz aborrecido... e minha frustração por você ter brigado comigo.
Eu nunca fui à igreja e nunca escutei um sermão. No entanto, mesmo sem haver falado sequer uma palavra em toda a minha vida, deixo para você o exemplo de paciência, amor e compreensão.
Sua vida tem sido mais alegre, porque eu estive ao seu lado!
  
Atos.

"Descanse em paz"